{"id":109462,"date":"2022-03-17T09:43:05","date_gmt":"2022-03-17T12:43:05","guid":{"rendered":"https:\/\/amandamol.com.br\/?p=109462"},"modified":"2025-10-01T17:41:41","modified_gmt":"2025-10-01T20:41:41","slug":"artista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hatsu.fabrica88.com\/amandamol\/artista\/","title":{"rendered":"Artista"},"content":{"rendered":"<p><strong>A primeira vez que a palavra artista me chamou aten\u00e7\u00e3o foi na aula de artesanato que fui matriculada aos 10 anos, da inesquec\u00edvel Tia Vera<\/strong>. Ela era uma senhora formid\u00e1vel que rapidamente se tornava \u00eddola de todos os seus alunos, era imposs\u00edvel n\u00e3o amar uma criatura que sabia fazer tantas coisas e tinha um jeito doce ensinar. A turma era mista, desde uma menina de 10 passando por adolescentes at\u00e9 uma senhora de 80. Tudo acontecia ao mesmo tempo em uma sala e varanda da sua casa: a cada semana \u00e9ramos apresentados \u00e0 diferentes t\u00e9cnicas e possibilidades art\u00edsticas, de acordo com a pauta que a pr\u00f3pria Tia Vera organizava e de acordo com o ritmo de evolu\u00e7\u00e3o de cada aluno. Lembro de aprender a fazer vela de parafina, pompons para montar um cachorrinho Poddle de l\u00e3, cesto de corda para fazer um enfeite de Natal com pinhas, pinturas com betume em casti\u00e7ais de gesso e at\u00e9 bombom com recheio de c\u00f4co (o melhor que j\u00e1 provei na minha vida at\u00e9 hoje) &#8211;\u00a0 esse foi o tema de uma das &#8220;aulas especiais&#8221; como ela mesma chamada. Aula especial era a licen\u00e7a po\u00e9tica da Tia Vera para ensinar o que ela quisesse complementando nosso leque de habilidades novas. Foi com ela que conheci a t\u00e9cnica de \u00f3leo sobre tela, o meu maior sonho de menina era poder pintar uma tela! Tenho a minha primeira telinha guardada at\u00e9 hoje. Frequentei durante alguns anos em todas as tardes de segunda-feira, de uma \u00e0s cinco, aquele era um dos momentos mais esperados da minha semana. Sempre fui muuuito t\u00edmida com pitadas de bicho do mato e falar em come\u00e7ar uma aula nova era algo que me trazia um frio na barriga desconcertante. Descobrir &#8220;o mundo Tia Vera&#8221; e o que me esperava ao subir aquela longa escada de uma das casas da Rui Barbosa mudou a minha vida. Foi a primeira vez que conheci uma artista de perto. Todos os materiais ficavam em uma prateleira enorme de ferro num dos cantos da sala que eu ficava babando desejando &#8220;zer\u00e1-la&#8221;, tamb\u00e9m tinha um piano que era mais uma de suas habilidades, as mesas eram todas juntas e amontoadinhas de modo que a gente ficava bem perto do outro colega, acompanhava seus processos, pedia ajuda, dava risadas, mas sem desconcentrar, xiiiiiu. Eu amava quando ela fazia xiiiiiiuuuu, pra tentar conter algumas gritarias dos adoles que rolavam vez ou outra. Amava especialmente porque eu sempre preferia o sil\u00eancio concentrada s\u00f3 treinando o que ela me ensinou, sem au\u00ea. Continuo igual. N\u00e3o me esque\u00e7o da sensa\u00e7\u00e3o de quando ela chegava na minha mesa, pois sim ela calmamente parava ao lado de cada aluno ao longo da tarde pra acompanhar, tirar d\u00favida, amparar. Como eu gostava de quando chegava a minha vez de ver os olhos dela pousados sobre a minha &#8220;arte do dia&#8221;. Sim eu queria ser notada, admito. (risos) E ela gostava muito de mim e eu dela. Essa foi a primeira vez que eu senti que ali era meu lugar, que existia um planeta al\u00e9m mat\u00e9rias da escola que poderia preencher a minha exist\u00eancia. No gloss\u00e1rio da minha inf\u00e2ncia o que eu senti foi: acho que eu posso ser artista tamb\u00e9m um dia, igual a tia Vera. Ela foi a minha primeira inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ontem eu lancei a minha <a href=\"https:\/\/hatsu.fabrica88.com\/amandamol\/categoria-produto\/originais\/\">nova s\u00e9rie de pinturas<\/a> e fiz uma live espont\u00e2nea como adoro fazer em dias de novidades, e durante a live recebi a pergunta &#8220;quem s\u00e3o suas inspira\u00e7\u00f5es&#8221;.\u00a0 Respondi o que penso, gentilmente. Hoje tomei coragem e vou confessar algo pra voc\u00ea: sempre me senti estranha respondendo essa pergunta e ironicamente essa \u00e9 a pergunta que eu mais respondi em toda a minha trajet\u00f3ria empreendedora. Digo isso porque acredito desde sempre que minhas maiores inspira\u00e7\u00f5es est\u00e3o no meu contexto de vida, nas pessoas que cruzam meu caminho, em quem eu sou e nas coisas que chamam minha aten\u00e7\u00e3o &#8211; e isso vai mudando continuamente. T\u00e3o simples. Mas parece que a gente n\u00e3o deixa parecer simples: h\u00e1 alguns anos o &#8220;artista digital&#8221; \u00e9 t\u00e3o cobrado para exibir sua lista de refer\u00eancias, de materiais, de qual seu fornecedor de onde aprendeu aquilo, e quais livros leu, quais perfis de instagram de artistas voc\u00ea indicaria &#8211;\u00a0 que dizer que me inspiro no meu modo de viver e nas minhas hist\u00f3rias, parece ser esconder algo. Na minha vida muita coisa me inspira e fazer curso com pessoas que admiro \u00e9 uma das minhas ferramentas m\u00e1gicas (rs), mas meu convite aqui \u00e9: nem que algu\u00e9m passe a sua lista completa de refer\u00eancias significa que tais coisas v\u00e3o atravessar voc\u00ea e seu trabalho como atravessou o de algu\u00e9m. Por isso eu acredito tanto que \u00e9 pra dentro que a gente tem que olhar, \u00e9 um caminho solit\u00e1rio mesmo, silencioso e \u00edntimo. Tenho certezas que houveram outras &#8220;Tias Veras&#8221; na vida de muitas pessoas que hoje trabalham com arte e porventura podem ter esquecido do valor que isso teve l\u00e1 tr\u00e1s. E se voc\u00ea curte o trabalho de algu\u00e9m: fa\u00e7a um curso com ela, ou\u00e7a o que ela tem a dizer al\u00e9m rede social, essa seria uma dica pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei ao certo quantos anos a Tia Vera tinha na \u00e9poca que fui sua aluna, arrisco dizer que uns 68, havia algo no olhar dela e numa for\u00e7a feminina que ela exalava que se conectava diretamente com o tipo de mulher que eu tamb\u00e9m queria ser um dia. Na verdade j\u00e1 at\u00e9 achava que era porque eu era bem abusadinha (risos). Ela me parecia doce e ao mesmo tempo forte, e livre, e acolhedora, e divertida, e misteriosa, e criativa e aberta ao que pudesse chegar. Eu a achava t\u00e3o moderna, t\u00e3o diferente das senhoras que eu conhecia&#8230; Mais do que dar o Google nas refs de pessoas aleatoriamente tente olhar quem s\u00e3o as pessoas que fizeram a diferen\u00e7a na sua hist\u00f3ria, como elas eram, como se expressavam, o que elas faziam que chamava profunda aten\u00e7\u00e3o. Quais as pessoas que te ensinaram alguma coisa que voc\u00ea carrega at\u00e9 hoje. Sua hist\u00f3ria \u00e9 um acervo riqu\u00edssimo, acredita ele.<\/p>\n<p>Obrigada por eu ter descoberto isso aos 10 nas suas aulas, de onde a senhora estiver sei que me escuta. Obrigada a todos os seres que apoiam outros artistas, aos que incentivam suas crian\u00e7as e aos que entendem a import\u00e2ncia de fazermos as pazes com os artistas que tamb\u00e9m desejamos ser na vida adulta. Arte \u00e9 f\u00f4lego e eu preciso dela nesse instante. Com todo meu amor, Amanda.<\/p>\n<p><iframe style=\"border-radius: 12px;\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/2omKREuhRymBzae4cDAf8r?utm_source=generator\" width=\"100%\" height=\"232\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira vez que a palavra artista me chamou aten\u00e7\u00e3o foi na aula de artesanato que fui matriculada aos 10 anos, da inesquec\u00edvel Tia Vera. 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